Por Janser Barreto, José Marques Neto, Leo Ladeira, Luiz Carlos Buruca, Neuza Caribé.   

Mito da Caverna


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Sexta-feira, Dezembro 14, 2007 :::
 
A Festa no Céu

Ontem escrevi sobre a festa no céu. Lembrei que o piano estava sendo arrastado. Nem sabia de quem era a festa.
Hoje já sei. O Márcio foi pra lá.
A Dona Neida tinha ido em fevereiro. Ela sempre foi apressada e gostava de cuidar de tudo..
Ela agora está no piano e o Márcio no trompete.
Todo Natal era assim. Eles tocavam juntos. Coisa mais linda do mundo!
Agora não vou assistir. Mas, com certeza os anjos estão aplaudindo.
Deus abençoe os Montarroyos.
(por Neuza Caribé)


::: posted by NEUZA CARIBÉ at 8:52 AM


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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007 :::
 
Festa no Céu

Na minha infância a chuva me causava um misto de tristeza e medo. Até que um dia alguém me deu uma explicação:
- A chuva é porque São Pedro está faxinando o salão no céu. A água desce porque o piso está sendo lavado. São os preparativos para a festa.
- Oba! Festa no céu é motivo de alegria. Pensava eu e continuando o raciocínio - Da tristeza eu já me livrei, mas... e os trovões? O barulho me dá medo.
- É o piano! Estão arrastando por causa da limpeza.
Até hoje quando vejo uma criança com olhinhos assustados por causa de chuvas e trovoadas eu não resisto e conto essa história.
Mentirinha boa deve ser passada e repassada...
(por Neuza Caribé)


::: posted by NEUZA CARIBÉ at 11:48 AM


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Sábado, Dezembro 01, 2007 :::
 
Criança é tudo de bom
“Internet vicia, minha filha!” Me disse tia Nair já, no auge dos seus 93 anos. E ainda completou: “Eu é que não entro nessa! Vou acabar viciada.”.
Pois bem, já que estou perdida mesmo pelo vício, virei orkuteira e faço parte de várias comunidades vou fundo nas reflexões.
Alguém me fala em “onda retro”. São várias comunidades que falam de novelas antigas, comerciais etc e tal.
Resolvo ir mais fundo e descubro coisas interessantes. Os donos das comunidades que falam dos anos 80 eram crianças na época. Lembram de coisas incríveis e muitas vezes sabem até mais do que quem de fato participou.
Disso pra mim fica a grande lição. Criança é fiel.
Uma criança nunca esquece aquilo que viu na infância.
Por isso, cada vez mais acho que devemos estar atentos para as nossas crianças.
Elas merecem o que há de melhor sempre. Seja em TV, teatro, cinema e tudo o mais. Elas nunca esquecerão.
(por Neuza Caribé)


::: posted by NEUZA CARIBÉ at 2:52 PM


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Segunda-feira, Novembro 19, 2007 :::
 
SONHAR
Creio que Merlin me mandou um sonho lindo.
Estava numa cidade cheia de cores, flores e muita alegria. Todos sorriam e o clima era de Natal.
As pessoas eram alegres e afetivas. Eu feliz da vida participava de tudo.
Percebia, porém que algumas pessoas não compartilhavam dos mesmos sentimentos.
Acordei com a sensação gostosa do sonho e lembrei quantas vezes durante a minha vida ouvi de rostos amargos a frase num tom de conselho: “Papai Noel não existe, viu?”
Mas, meu mundo sempre foi colorido, cheio de fadas e encantamentos. As bruxas... bem deixa elas pra lá`...
(por Neuza Caribé)

::: posted by NEUZA CARIBÉ at 7:44 PM


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O Mito da Caverna

Foi nos anos 60 que entrei em contato com o "Mito da Caverna", através da minha professora de português, Lina Tamega Del Pelozo. Cursava o clássico de letras ( hoje ensino médio) no Colégio Elefante Branco, em Brasília. Esse tempo representou um divisor de água na minha vida.

Lina passou a ser minha mentora intelectual. E devo a ela minha formação. Só ressinto em não ter ido mais fundo nos seus ensinamentos. Guardo, por exemplo, uma relação dos livros, que nos indicou para ler, que seria a base do nosso conhecimento.Vergonhosamente não devo ter lido nem metade.

Por outro lado "O mito da Caverna" me persegiu e me persegue há muitos anos. Fiz dele um cavalo de batalha, um bordão, uma muleta. Sempre que podia encaixava-o em qualquer conversa.

"_Ih! Lá vem o Buruca com essa história de significante, significado!", acho que Vicente Pereira que me deu o toque.

Passei a maneirar , mas isso depois de muita explicação da origem das palavras, a lingüística (" O estudo da origem das palavras, chama-se etimologia. A Linguística é a ciência que estuda a linguagem humana em seus aspectos fonéticos,morfológicos,sintáticos,semânticos, sociais e psicológicos. Ou dentre de uma definição mais atualizada: a linguagem das relações humanas, por conseguinte, a ciência de comunicação" * Lina Del Pelozo)A diferença entre o Real, o Real Imaginário e o Absoluto. E a minha versão do "Mito" propriamente dito.

Saindo com uma atriz ,de uma aula de teatro, não perdi a oportunidade de encaixar o Mito (o significado, significante ...) no papo que vinha tendo no carro do seu marido , um compositor e cantor famoso. Sem dúvidas estava me exibindo ao "Mito vivo" que estava me dando carona e só ouvia. Calado... Era famoso também pela sua timidez.

Outra vez foi num reveillon, nos anos 70, na casa de um diretor de TV, depois de alguns copos de vinho. E foi notório o desconforto dele ao tomar conhecimento do assunto através de um jovem e presunçoso ator.

Fui dando conta que estava exagerando. Mas na casa de outra atriz, também famosa, lancei mão do tema, no meio de um porre de licor, e ela ficou impressionada com aqueles meus "conhecimentos". E me perguntou onde havia aprendido aquilo.

Mas o texto de Platão só no ano passado que o li na íntegra através de um e mail do cenógrafo Edward Monteiro.

Mas aqui vai a minha compacta versão e Lina e Platão me perdoem por qualquer deslize.

Três homens viviam acorrentados dentro de uma caverna, voltados para uma parede e sem noção do mundo externo. Um dia através de uma fresta puderam ver projetado na parede à sua frente imagens de bichos e homens que por ali passavam e que eram refletidos pela sombra de uma fogueira que uns camponeses deixaram.

A partir daí o Real para eles eram as imagens que se projetavam, como numa tela de cinema. Na verdade o Real Imaginário, o da criação. E o Real Absoluto estaria num plano superior onde as coisas tiveram origem.

Dava o exemplo da palavra casa, que para todos tem o mesmo significado, mas que cada um possui um significante diferente, particular. Por exemplo se uma criança de Brasília fosse desenhar uma casa o faria com um telhado reto e não triangular e com chaminé como fazíamos em criança.

Tenho que me aprofundar mais no texto do Platão, mas prometo que não serei mais tão enfadonho e repetitivo. Será que não?

(por Luiz Carlos Buruca)


::: posted by NEUZA CARIBÉ at 6:55 AM


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Terça-feira, Novembro 06, 2007 :::
 
Carta de Rubens Corrêa aos alunos da CAL em aula inaugural, 1984
Recado aos jovens da CAL
Rubens Corrêa


Fui convidado para conversar com vocês sobre o ator; sei que muitos
aqui jamais representaram, e outros deram apenas os primeiros passos
neste caminho labiríntico que é o mundo da interpretação. É uma tarefa
que exige de mim sensibilidade e coragem; acho uma grande
responsabilidade falar aos jovens, e é com muita emoção e prazer que
passo adiante as humildes sementes do meu trabalho artístico, com a
esperança de que alguma utilidade possa ser encontrada nelas e que de
alguma maneira elas possam lhes tornar a caminhada menos solitária e
mais solidária, na medida em que esta receita muito pessoal provoque
dúvidas e reconsiderações, ou toque o sagrado dentro de cada um de
vocês, ou reacenda aquela esperança cega que Prometeu garantiu ser a
conquista mais urgente para a sobrevivência do homem neste planeta.
O grande poeta e dramaturgo alemão Büchner escreveu numa cena de sua
peça "Woyseck": "Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens
quando se debruça sobre um deles."
Acho que nós atores somos duplamente esse abismo-espelho: como seres
humanos e como artistas. Nossa missão é provocar vertigem e o
revisionamento do abismo dentro de cada espectador, para que depois de
cada mergulho em nossos personagens-propostas essas pessoas pensem, se
emocionem, compreendam e amem com nova e maior intensidade.
Eu, Rubens Corrêa, ator e artista de teatro, vinte e oito anos de
profissão, e séculos e mais séculos de um longo período não sei onde,
ofereço a vocês com apaixonada humildade o meu aprendizado nesta
caminhada em cima das brasas sem se queimar que é a condição
necessária para poder representar e viver com algum significado neste
nosso bizarro país sul-americano.(...)

O CÁLICE
Representar para mim é a possibilidade que me foi dada de me comunicar
com o meu semelhante através de uma troca de idéias, imagens,
palavras, gestos e emoções. Um divertido, fascinante, e muitas vezes
cruel jogo que mistura ficção e realidade, consciente e inconsciente,
sagrado e profano, amor e ódio, vida e morte. Uma Paixão.
Através dos anos venho elaborando em cima das tábuas o meu trabalho,
tentando sempre o difícil equilíbrio entre as conquistas técnicas e a
simplicidade da execução. Aqueles instantes, todas as noites, em que
represento um papel, são sempre os melhores momentos do meu dia. Isso
quer dizer que levo para o palco meus sentimentos, minha idéia, minhas
alegrias, meus abismos, meu horror e minha luz. Diariamente filtro
essas emoções através das necessidades de cada personagem, e recebo de
volta para mim mesmo uma nova compreensão de meus problemas - e
acrescento ao personagem um novo enriquecimento conseguido "à quente",
quer dizer, arrancado de dentro de mim mesmo.
Com o correr dos anos fui aprendendo a me observar como artista e ser
humano, e fui tentando aproveitar em meus desenhos interpretativos a
linguagem interior de minha vivência pessoal, para conseguir assim
essa difícil união entre arte e vida, que foi sempre a minha grande
aspiração.
Sempre acreditei que cada ator traz consigo um material fantástico,
inimitável e único, muito difícil de ser conservado e desenvolvido
nesta nossa era brutalizada e massificada.
É um cálice de cristal interior, que deve ser preservado e defendido
através de muitos terremotos, muita contrariedade, muita decepção e
sensação de abandono, mas com momentos também de enorme luminosidade
que quando acontecem recompensam o artista e engrandecem o ser humano.
Cada ator é único e inimitável se ele mergulha com honestidade em si
mesmo, e retrata o seu semelhante com generosidade, verdade e paixão.
"Somos feitos da essência com que os sonhos são feitos" escreveu
Shakespeare, e essa é a melhor definição que conheço sobre o mistério
da representação.

O CAVALO
Cada ator tem obrigação de zelar e desenvolver o seu instrumental –
sua voz, seu corpo: seu cavalo. Devemos transformar nosso corpo num
grande arquivo de imagens com possibilidades de serem utilizadas em
nossos futuros personagens; nossa voz deve poder miar, rugir, gemer,
uivar – nossas mãos podem ser galhos de árvores, garras de feras,
folhas secas ao vento – nossos pés, colunas de um templo, patas de
animais. Nossos olhos devem poder reproduzir o enigma do olhar da
esfinge, e a clareza cristalina de um poema de Brecht.
E mais, devemos nos preparar para poder receber com artística
mediunidade a alma do mundo, as grandes interrogações do nosso tempo,
a voracidade deste universo em constante transformação.
Devemos ser suficientemente fortes para poder reproduzir
simultaneamente a maravilha e o horror do ser humano, a criatividade e
a autodestrutividade de nós todos, homens, através desta difícil
caminhada da vida.
O nosso cavalo deve então se preparar para poder assumir todas estas
formas, e por isso ele tem de ser constantemente reabastecido e
renovado.
O cavalo é também o estimulador de nossa energia, o conservador de
nosso entusiasmo e de nossa fé; quando as crises vierem (e não tenham
dúvida de que elas virão), nada melhor do que trabalhar na
fortificação do cavalo, porque no mínimo estaremos crescendo durante a
crise, estaremos trabalhando e temperando novas energias, adquirindo
novas técnicas, novos conhecimentos. Podem ter certeza de que um bom
cavalo torna o ator indestrutível.

O FOGO
O fogo através do tempo sempre foi o símbolo vivo da fé, do entusiasmo
e da rebeldia; mantê-lo aceso dentro de nós é também um trabalho para
a vida inteira. O fogo nasce de um estado de curiosidade natural e
instintivo e pode ser desenvolvido através da conquista progressiva de
uma cultura geral, de uma observação apaixonada da história do homem,
da história de todas as artes, da emocionante história do teatro – e
um profundo sentimento de observação do ser humano – aqueles para quem
realizaremos nossas mágicas, o nosso público. Esse fogo interno, uma
espécie de grande rol central de energia e fé, é uma grande defesa
contra a acomodação, e me parece ser a grande mola propulsora da
criatividade; devemos estar sempre atentos aos seus chamados, e é
preciso não deixar nunca, custe o que custar, esse fogo esmorecer,
porque, caso isso aconteça, seremos os artífices de uma arte morta,
sonâmbula, inútil, feia e resignada.

O MENINO
A recuperação da liberdade da infância através da vida adulta foi
sempre uma das minhas metas; a criança é uma fonte incrível de
informação artística - e a criança que nós fomos recuperada através do
nosso lado lúdico tão atrofiado pelo correr dos anos – pode nos servir
de guia, mas um guia muito especial, que caminha alegre e
despreocupado, que sabe descobrir o mágico dentro do cotidiano,
intuitivamente
Um grande exemplo da presença do menino dentro de um artista está na
figura e na obra do pintor Pablo Picasso. "Eu não procuro, eu acho"
afirmava o grande pintor. E essa fala denuncia o menino que Picasso
levava dentro de si, que pintava cerâmica usando como base para o
desenho a espinha do peixe que tinha comido no almoço, ou fazia
fantástica escultura aproveitando uma roda velha e quebrada de uma
bicicleta encontrada na estrada durante seu passeio matinal. O menino
traz alegria e descompromisso racional para o trabalho artístico. No
Passeio Público do Rio de Janeiro tem um menino-anjo esculpido num
bebedouro (se não me engano de Mestre Valentim) com a seguinte
legenda: "Sou útil, inda brincando". Essa é a lei e a sabedoria dos
meninos.
Acho que preservando o cálice, domando o cavalo, estimulando o fogo e
soltando o menino, o artista está preparado para viver e criar uma
vida bela e uma obra útil para a coletividade.

* Aula inaugural da Cal (Casa das Artes de Laranjeiras) – Rio de
Janeiro (RJ), em 12 de março de 1984. Reproduzida de uma apostila do
autor.


(por Luiz Carlos Buruca)

::: posted by NEUZA CARIBÉ at 8:38 AM


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Terça-feira, Outubro 02, 2007 :::
 
Extraído de "A República" de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291

SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.
GLAUCO - Imagino tudo isso.


SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.

GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!


SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?


GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.


SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

GLAUCO - Não.

SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?

GLAUCO - Sem dúvida.

SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO - Claro que sim.

SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.

GLAUCO - Necessariamente.

SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via. Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.

SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

GLAUCO - A princípio nada veria.

SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO - Não há dúvida.

SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

GLAUCO - Fora de dúvida.

SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO - Evidentemente.

SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO - Por certo que o fariam.

SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.

(por Luiz Carlos Buruca)


::: posted by NEUZA CARIBÉ at 6:56 AM


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Quarta-feira, Setembro 26, 2007 :::
 
Meu primeiro contato com o teatro se deu na escola onde estudava no Rio, o Instituto Souza Leão. Em 1976, aos oito anos, me surpreendi certa tarde quando a professora revelou que teríamos aula de teatro. Não se tratava apenas de uma montagem de peça de final de ano não. Teríamos aula mesmo e com professores de fora do colégio.

Tive aula com três professores: Maria Cristina Gatti, Arnaldo Marques e Alice Reis. Jamais esqueci dos nomes deles, pois aquelas aulas eram minhas atividades preferidas naquele momento; não só no colégio, mas na minha infância.

Foi engraçado perceber que as mesmas pessoas que conviviam comigo em sala de aula, nas aulas de teatro adotavam um comportamento totalmente diferente. Introvertido, não tinha muitos amigos, mas no teatro todos pareciam ser mais próximos, solidários e carinhosos. A realidade parecia ser bem diferente, pois tudo almejava o bom empenho da peça, do trabalho em equipe.

Naquele momento foi despertado meu interesse pelo teatro e, durante os próximos anos, tive a felicidade de assistir a várias montagens de O Tablado, tradicional escola de teatro do Rio. Ver as peças do Tablado aos nove, dez anos, trazia a mesma sensação de encanto e magia que tinham as aulas no Souza Leão.

Me lembro do sentimento de alegria, que começava já à entrada do teatro. Cada espetáculo era devorado por olhos faiscantes. "Pluft, o Fantasminha" era meu pequeno clássico. Até hoje posso cantar as desventuras da Menina Maribel, com olhos cor do céu e cabelos cor de mel. E viva o grande capitão Bonança!

Foram várias peças: “O Cavalinho Azul”, “Quem Matou o Leão?”, “João e Maria”, “Os Cigarras e os Formigas”, “O Rapto das Cebolinhas”... Lembro-me de todas com muito carinho e saudade.

Em meados dos anos 80, fui morar em Brasília, me afastando um pouco do Tablado e de meus heróis de infância. Naquela época jamais imaginaria que um dia trabalharia com teatro, mesmo não sendo ator. Mas isso é assunto para um próximo post. Por enquanto fica apenas esse prólogo.


(Por Leo Ladeira).



::: posted by NEUZA CARIBÉ at 8:22 AM


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Terça-feira, Setembro 25, 2007 :::
 
Segundo Platão e sua teoria do Mito da Caverna, estamos todos olhando para o fundo e o que vemos são sombras refletidas que vêm do exterior.

Como ser humano tenho a certeza de que o mundo que chamamos real nada mais seja do que a caverna que Platão falava. Aquilo que chamamos realidade e acreditamos estar vendo e vivendo nada mais é do que um reflexo de algo maior, talvez orquestrado por Deus.

Quando conheci o trabalho do Léo e do Neto tive a comprovação mais uma vez que em todas as áreas existe sempre a tal caverna refletindo a imagem real.

Quem faz cinema, teatro, televisão e artes em geral sabem o quanto os profissionais da área estão compromissados em fazer um belo espetáculo.

Quantas vezes estamos dentro de um palco entretidos pela maquinaria e não temos tempo de observar a magia e o impacto que o público vê.
Talvez por essa razão tenha surgido a vontade de escrever sobre isso.

Saber o que acontece nos corações daqueles que “fazem” a exibição de alguma obra, seja ela literária, teatral, cinematográfica etc e tal.
Sempre que uma cortina se abre existem tantas histórias reais acontecendo que é muito bom poder compartilhar com as pessoas que assistem apenas ao espetáculo.

É isso aí! Espero que vocês se divirtam e gostem das histórias que vamos contar.

(por Neuza Caribé)


::: posted by NEUZA CARIBÉ at 7:25 PM


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